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Eu tenho por sistema adotar todas as superstições interessantes que me vão aparecendo na vida! Dão-me muita sorte as crenças alheias

Toda a gente tem as suas superstições, quer confesse quer não. Algumas são herança de família, outras fazem parte do folclore e ainda existem as que vamos criando e que são só nossas, privadas e muito exclusivas.

Todos acham que os artistas, sejam eles do teatro, da música ou da televisão, têm uma série de rituais únicos para se protegerem.

Isto já para não falar dos mil e um requintes de malvadez por que passa qualquer toureiro antes de pisar uma praça, tudo para se proteger, seja ele muito católico ou pouco crente. É que para enfrentar um touro todos os cuidados são poucos.

A minha dificuldade é entrar neste universo sem chamar os bois pelos nomes. Há coisas que não se fazem, há muitas que não se dizem e também não se escrevem.

Por exemplo, não posso falar da tal palavrinha começada por A que significa pouca sorte, e só de pensar nela já estou a bater na madeira. Toc, toc, toc. Três vezes.

No teatro já aprendi muitas. Há um bicho rastejante, começado por C, que deixa os atores escamados, como se tivessem sido mordidos por uma língua bífida. Pássaros em cena são penas. Penas de tristeza. Ou seja, a evitar. Não se agradece quando alguém nos deseja «muita merda», para que o espetáculo corra bem. E quando o texto de uma peça cai ao chão é êxito garantido.

Algumas superstições  vivem comigo desde os bancos da escola. Nunca apanho o cabelo nos dias em que sou posta à prova. Em criança, tranças nos dias de testes até me deixavam os cabelos em pé. Hoje é mais que certo que não faço nenhum programa com o cabelo apanhado. Para terem uma ideia da força das minhas convicções, a minha personagem na peça A Partilha usa o cabelo apanhado e eu consegui convencer o Miguel Falabella que isso, para mim, era impossível. Embora não seja muito supersticioso, como bom brasileiro que é, levou a coisa muito a sério e cedeu.

No Big Brother também havia superstições. Foi lá que nasceu uma superstição que foi partilhada por grande parte da equipa técnica, e que passou despercebida à maioria do público. Houve sempre a mesma garrafa de água, em cima da mesa, do primeiro ao último programa das seis séries. Todas as terças-feiras, a nossa garrafa era religiosamente guardada na casa de um amigo e companheiro de trabalho, o câmara João Dias, que a trazia de volta na semana seguinte.

As superstições de Teresa Guilherme

As superstições de Teresa Guilherme

Tudo começou no Verão imediatamente anterior ao primeiro Big Brother, quando a equipa estava a fazer outro programa para a RTP, em que viajávamos por todo o país. Ao jantar, mesmo antes do espetáculo, criámos um hábito que se transformou rapidamente em superstição. Um elemento da equipa escolhia no restaurante um objeto, e eu tinha de convencer o dono a oferecê-lo: um cinzeiro, um copo, um simples bibelô. Mais palavrinha menos palavrinha, eu conseguia sempre.

Até que chegou a vez do João Dias escolher o tal objeto no restaurante Palmeiras, que fica em Areias de S. João, lá para os lados de Albufeira.

E o João atirou-se logo a uma aparatosa garrafa para ver se era dessa vez que eu perdia. Primeiro obstáculo: a dita garrafa também era especial para o dono do restaurante, o Sr. João Manuel. Eu que pedisse outra coisa qualquer, mas aquela garrafinha é que não, argumentava ele.

Depois de muita converseta pedi-lhe para ele, ao menos, a emprestar, dizendo-lhe que seria o amuleto do Big Brother que ia começar daí a poucas semanas.

O Sr. João cedeu, mas tive de lhe prometer que, quando acabasse o programa, a devolvia. Depois de quatro anos, em que aquela garrafa foi tratada nas palminhas, mas que também nos rendeu muitas palminhas, lá a devolvemos ao Sr. João Manuel. Ao contrário do que seria natural, ele nunca contou a ninguém a história daquela garrafa e por fim ofereceu-ma. Deixou de ser anónima e acompanha-me até hoje, sem nunca perder a magia. Obrigada ao Sr. João Manuel por ter acreditado, com tanta força como eu, que dentro daquela garrafa estava o segredo do sucesso do BB. Toda a gente tem as suas superstições e amuletos, só que não confessam. Mas isso agora não interessa nada.

TG

Eu e as minhas superstições  - Teresa Guilherme

Eu e as minhas superstições – Teresa Guilherme

 

Eu e as minhas superstições  - Teresa Guilherme

Eu e as minhas superstições – Teresa Guilherme

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